Encontros da Confraria

Encontros nas terceiras terças feiras do mês, na Do Arco da Velha Livraria e Café, das 19h às 20h30min..

domingo, 15 de abril de 2012

O Maravilhoso Mágico de Oz - palavra de confrade

   Coloco aqui para a apreciação de todos um texto escrito pelo nosso Confrade Dangelo Muller sobre a obra já discutida "O Maravilhoso Mágico de Oz".




Comentários sobre O Mágico de Oz, de L.F. Baum[1]:

Os jogos do Mágico

Dangelo Müller*



Falar algo sobre o livro “O mágico de Oz” é sempre um desafio: a satisfação de comentar uma das mais interessantes obras de ficção produzida no século XX se depara com o problema da repetição. Parece que a busca por nossa própria estrada de tijolos é o passo inicial na jornada pela terra de Oz.

            Escrito no início do século XX, a obra de Lyman Frank Baum conseguiu um feito raro aos nossos dias: tornou-se um elemento cultural, um formador de imaginações. Leitores de todas as idades visitam a fazenda de Tio Henry e Tia Em no Kansas, viajam com Dorothy pela estrada dos tijolos amarelos e voam nas asas dos terríveis macacos alados. A influência de “O mágico de Oz” transbordou os imaginários literários, se manifestando em musicais, peças teatrais, filmes, brinquedos e, não raro, em fanarts que mesclam motivos ocidentais e os mangás japoneses. Sem dúvida, “The woderful wizard of Oz” é um dos livros marcantes do século passado e superou, a muito, o rótulo infanto-juvenil.

            Um elemento interessante da obra está justamente em sua estrutura: Baum retoma alguns pontos do estilo narrativo das fábulas e dos contos de fadas de Perrault, Grim e Andersen. Existem princesas, bruxas e reis, mas existem, em paralelo, heróis que se descobrem, a jornada pela terra desconhecida, as situações de desafio e etc, ou seja, ao longo de “O mágico de Oz”, encontramos um enredo que recria o conto de fadas e, algumas vezes, o subverte.

            Narrado em terceira pessoa, por uma voz aparentemente adulta e onisciente, a obra segue a estrutura típica dos romances, privilegiando capítulos que funcionam como pontos numa “estrada” mais ampla. Em sua jornada, a pequena Dorothy, não raro, conhece cidades e florestas nas páginas que separam um capítulo de outro, e essa é uma característica de Baum, o qual consegue formular uma geografia interessante e concisa, menos detalhada que aquela posteriormente vista nas obras de J.R.R. Tolkien ou C.S. Lewis. Sob esse aspecto, a questão do espaço onde se desenvolve a trama é bem pontuada: há o Kansas, o deserto e o mundo de Oz. Percebe-se o forte contraponto nas páginas em que o autor apresenta as planícies do estado americano em tons cinza e as terras de Oz totalmente coloridas, com Munchkins e a cor azul predominando no leste, com os Winkies e a cor amarela ao oeste, e Quadlings e o vermelho no sul. Tais povos coloridos são mediados pela Cidade Esmeralda, e protegidos (ou atormentados) por bruxas, cuja cor é o branco. Em relação às cores, é interessante perceber que os sapatinhos vermelhos da Dorothy do cinema (Judy Garland), conste, nunca o foram na obra literária: a menina do Kansas usava os sapatos da falecida bruxa do leste, os quais eram prateados – uma variação do branco consagrado aos elementos mágicos presentes na narrativa.

            Além das cores, outro ponto interessante no livro é a dicotomia entre bruxas boas e bruxas más. A simples palavra “bruxa” não é capaz de definir o ser que designa, mas precisa de um complemento para fazer sentido. Dessa forma, Baum apresenta a importância das obras, dos fatos e da experiência sobre os conceitos, algumas vezes, vazios, que só ganham sentido após uma construção de significado. E esse elemento, a construção – simbolizada na jornada – parece estar no âmago de “O mágico de Oz”.

            Todo enredo da obra vincula-se à jornada de Dorothy, pois à medida que a menina percorre as longínquas terras em busca de seu lar, ela acaba por construir e significar a realidade que a rodeia. A imagem utilizada pelo autor é emblemática: Dorothy está em uma jornada que transforma o cinza em colorido, o comum em maravilhoso e o velho em novo. O trajeto da personagem é múltiplo: há a viagem horizontal da menina que percorre do leste ao oeste e, voltando vai ao sul, e a viagem vertical do ser humano que busca o conhecimento mais profundo de si mesmo e de seu papel na sociedade. Para essa segunda viagem, os companheiros de Dorothy são ainda mais importantes.

            Este inusitado quarteto, formado por uma menina, um espantalho, um homem de lata e um leão, já causa curiosidade por sua composição heterogênea. Alguns críticos vinculam essa diversidade, e a própria construção da obra de Baum, a uma alegoria política, tratando dos preceitos da política monetária do populismo. Preconizando a valorização da prata sobre o ouro, assim como a caracterização do fazendeiro americano enquanto o espantalho, do operário como o homem de lata e dos políticos em voga enquanto o leão covarde, conforme se pode observar no artigo escrito em 1964 por H. Littlefield: "The Wizard of Oz: Parable on Populism”, os personagens seriam metáforas, ou alegorias, do povo americano em seu ecletismo.

            Outros artigos apresentam “O mágico de Oz” como uma obra marcada pela influência da teosofia, misto de filosofia e religião, que contava com a simpatia de Baum. Sob esse aspecto, a figura do Mágico Charlatão é pontual e revela uma crítica mordaz à crença sustentada por manipulações e ilusões. As tantas formas do Mágico escondem a terrível verdade de que seu poder é um elemento imaginário, que necessita de uma atmosfera especial para existir. Ora, como explicar que um ventríloquo circense – a real ocupação do mágico – possa ter ordenado a construção da maravilhosa Cidade Esmeralda, se não por meio de “poderes especiais e secretos”? Sua sagacidade e dissimulação são, na verdade, seus únicos dotes “mágicos”.

            Deixando a crítica que se embasa na vida de Baum um pouco de lado, e seguindo os preceitos que instituem o texto como objeto privilegiado de análise e capaz de diálogo com o leitor, percebe-se a riqueza dos símbolos e imagens presentes na obra. Há um jogo antitético no quarteto de Oz: palha e metal, coragem e medo.

Toda leveza, maciez e maleabilidade do Espantalho são contrapostas à solidez brilhante e metálica do Homem de Lata. O temor do Espantalho é o fogo, capaz de consumi-lo em poucos segundos, enquanto o medo do Homem de Lata é a água, capaz de enferrujá-lo para sempre. O ataque dos macacos alados ao quarteto é exemplar sob esse aspecto: enquanto o Espantalho se desfaz em todas as direções, com sua palha levada pelo vento, o Homem de Lata é arremessado às rochas, tendo seu corpo destruído pelo choque e conseqüentes batidas no penhasco. O que une esses personagens tão díspares é o seu reparo: a palha é posta de volta e costurada pela mão do artesão, enquanto o metal é restaurado pelas mãos dos mestres ferreiros.

            Dorothy e o Leão, por sua vez, são uma dualidade mais sutil que aquela vista entre o lenhador e o espantalho. A menina e a fera são caracterizadas pelo jogo entre interno e externo, entre vontade e medo. Dorothy Gale é o avatar da vontade na obra, sua decisão em prosseguir com a jornada, mesmo após as várias adversidades, é o “fio condutor” central da trama. A interação da menina com os mais diversos elementos pontua seu aspecto extrovertido, deixando ao leitor a imagem de um personagem capaz de se conectar aos demais. O leão, diferentemente, esconde-se em sombras e ecos, preferindo ocultar-se – o comportamento oposto ao esperado do “rei das feras”. E aqui se percebe que a palavra “expectativa” é de suma importância: o jogo entre Dorothy Gale e o Leão é uma rica combinação entre a coragem e a esperança frutificadas pelo autoconhecimento. Pode-se notar que o Leão torna-se mais próximo de Dorothy e assume partes de seu caráter, como tão bem se observa no trecho em que a Bruxa Má do Oeste tenta transformá-lo em sua montaria particular. O Leão, até então julgando-se medroso, começa a resistir – um dos primeiros passos para sua autoafirmação. É o equilíbrio entre a expectativa e a prudência que matiza os tons entre esses dois personagens fascinantes.

            Há muito que falar sobre tal texto, e parece que sua riqueza só tende a aumentar a cada nova leitura. Desse modo, o “desafio”, citado no parágrafo inicial, continua válido, mas com o “facilitador” de que nossa estrada de tijolos amarelos transcende as páginas da obra, as classificações de gênero e mesmo os paradigmas de uma ou outra corrente ideológica. Falar sobre “O mágico de Oz” ainda é desafiador, mas igualmente gratificante.

           



[1]   BAUM, L. Frank. O mágico de Oz. São Paulo: Barba Negra: Leya, 2011. Obra mediada por Rogério Becker, no dia 17/01/2011, na confraria de literatura infanto-juvenil Reinações.
* Membro da Confraria de literatura infanto-juvenil Reinações, de Caxias do Sul-RS

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Confraria Reinaçoes de Porto Alegre faz 5 anos

  PARABENIZAMOS a Confraria Reinações de Porto Alegre pelos seus 5 anos.

 E quem se interessar em participar do evento, ele ocorrerá em  POA dia 10/04 na Palavraria.

 Segue o convite do Evento

terça-feira, 20 de março de 2012

Os meninos da rua da praia

    No próximo dia 27 de março de 2012, será realizada nosso 33º Encontro, em que o livro escolhido será a obra de Sergio Capparelli, "Os meninos da rua da praia".
    O debate será coordenado pela confrade Maria Helena Catan.

    Local: Livraria e Café do Arco da Velha, rua os 18 do forte, ao lado da Escola Nossa Senhora do Carmo.

   Convite feito pela confrade Karen Basso.


 Lembrando:
 Horário: das 19:30min. às 21horas.
 NÃO é necessário ler préviamente a obra.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As Aventuras de Pinocchio

    No próximo dia 14 de fevereiro de 2012, será debatida a obra prima do autor Carlo Collodi, "As Aventuras de Pinocchio"
   
    A coordenação do encontro ficará a cargo dos confrades Rogério Becker - tradução em português - e de Luci Barbijan - original em italiano.

    Local: Livraria e Café do Arco da Velha, Rua os 18 do forte ao lado do colégio N. Sra. do Carmo, Caxias do Sul, das 19:30hs às 21:00 horas.

   Cartaz - Convite do encontro.

                                       Convite elaborado pela confrade Karen Basso

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Bicentenário de Charles Dickens

    Hoje comemora-se o Bicentenário de Nascimento de Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 Moure, condado de Hampshire, Inglaterra).

    Charles John Huffman Dickens nasceu em 07 fevereiro de 1812 em Portsmouth, Hampshire, Inglaterra, filho de Elizabeth Barrow (1789-1863) e John Dickens (c.1785-1851) um funcionário da Marinha.
     Jonh era um homem simpático, hospitaleiro e generoso, possuindo uma falha que lhe causou dificuldades financeiras ao longo da sua vida. Ele inspirou o personagem Mr. Micawber em David Copperfield (1849-1850).
    Dickens na infância era um leitor voraz de autores como Henry Fielding, Daniel Defoe, Goldsmith e Oliver. Quando não estava freqüentando a escola, ele e seus irmãos jogavam jogos de faz de conta, realizavam recitais de poesia, cantavam canções e criou produções teatrais em que provocaria uma vida de amor ao teatro em Dickens.
    As despesas da casa estavam subindo e em 1824, John Dickens foi preso por dívida. Toda a família foi com ele, exceto Charles que, na idade de 12, foi enviado para trabalhar em Blacking Warren sapatos de Fábrica para ajudar a família, colando etiquetas em caixas.

    Os dias idílicos de sua infância não existiam mais, sendo rudemente introduzido ao mundo dos pobres, onde o trabalho infantil era galopante e poucos ou nenhum adulto falava uma palavra gentil para as crianças abandonadas ou órfãs. Muitos de seus personagens no futuro, como Oliver Twist, David Copperfield, e Pirrip Philip seriam baseados em suas próprias experiências.
   
    Quando seu pai foi liberado da cadeia, sua mãe insistiu que continuar a trabalhar na fábrica. Ele se sentiu traído por ela, seu pai conseguiu mandá-lo para a Wellington House Academy, em Londres, como um aluno  durante os anos de 1824-1827, talvez para salvá-lo de uma vida de trabalho na fábrica e colocando-o no caminho para se tornar um escritor.
    Em 1827 os Dickens foram despejados de sua casa e Charles teve que sair da escola. Ele obteve um emprego como funcionário num escritório de advocacia, aprendeu taquigrafia e tornou-se um repórter da corte. Passava grande parte de seu tempo livre lendo na biblioteca do Museu Britânico e estudando atuação. 
    Em 1833, escreve a sua primeira de muitas histórias e também possuia alguns esboços publicados no Morning Chronicle, que em 1834 começou a escrever adotando o pseudônimo "Boz". Neste momento Dickens saiu por conta própria para viver como um solteirão no Inn de Furnival, Holborn. Seu pai foi preso novamente por dívidas e Charles afiançou-lo, e por muitos anos mais tarde, seus pais e alguns de seus irmãos se voltaram para ele para a assistência financeira.

    O primeiro livro de Dickens, uma coleção de histórias intitulado "Sketches" foi publicado em 1836, um ano frutífero para ele. Casou-se com Catherine Hogarth, filha do editor do Chronicle Evening. Um ano depois eles se mudaram para 48 Doughty Street,, London, hoje um museu. O casal teria dez filhos.
    Assim começou um período prolífico e bem sucedido comercialmente da vida de Dickens como escritor. A maioria de seus romances foram primeiro serializado em revistas mensais, como era uma prática comum da época. Oliver Twist entre 1837 e 1839 foi seguido por Nicholas Nickleby (1838-1839), The Old Curiosity Shop (1840-1841), e Barnaby Rudge (1841). Série de Dickens de cinco livros de Natal foram logo a seguir, A Christmas Carol (1843 - Já discutida nos nossos encontros), The Chimes (1844), O Grilo na Lareira (1845), A Batalha da Vida (1846) e O Homem Assombrado (1848). Dombey (1846) era a sua próxima publicação, seguido por David Copperfield (1849).

    De 1851 a 1860, o Dickens viveu em Tavistock onde tornou-se fortemente envolvido no teatro amador. Ele escreveu, dirigiu e atuou em muitas produções com seus filhos e amigos, muitas vezes doando o dinheiro arrecadado com as vendas de ingressos para os necessitados.
    Em 1858 partiu em uma turnê de leituras públicas. Um ano mais tarde fundou a sua segunda revista semanal, no mesmo ano lança a obra A Conto de Duas Cidades (1859) em que foi serializado. Grandes Esperanças (1860-1861) seguido por Nosso Amigo Comum (1864-1865). Em 1865, viajando de volta de Paris com Ellen e sua mãe, envolveram-se no acidente de trem de Staplehurst, dos quais Dickens sofreram ferimentos leves, mas nunca se recuperou totalmente do choque pós-traumático do mesmo. Dois anos depois, viajou para os Estados Unidos para uma turnê de leitura. 

     Charles Dickens morreu de uma hemorragia cerebral em 09 de junho de 1870 na sua casa em Hill Gade. Ele está enterrado no canto do poeta da Abadia de Westminster, em Londres, seu túmulo está inscrito assim: "Ele era um simpatizante dos pobres, do sofrimento, e dos oprimidos, e por sua morte, um dos maiores escritores da Inglaterra está perdido para o mundo."

    Contexto social
 


   
    Quando Dickens começa a publicar os seus romances, tem à sua disposição um público formado pela revolução industrial. Londres tem mais de um milhão e meio de habitantes, devido à explosão demográfica e a um êxodo rural que expulsa os camponeses dos seus terrenos que ficam cercados em "enclosures" dedicadas à pecuária, mais especificamente, à criação de ovinos. A indústria têxtil servirá de emprego para estes espoliados. O trabalho infantil torna-se uma das características mais pungentes da economia inglesa. Em 1845, Engels publicará "A situação da classe operária em Inglaterra", onde toda esta situação é analisada. Dickens aflorará estes problemas, é certo, mas conquistará o público burguês porque não se assumirá nunca como um revolucionário… As suas personagens, quando melhoram de vida, devem essa melhoria às circunstâncias e acasos da vida, mais que à sua luta pela justiça social. Por outro lado, a população anglófona é a mais alfabetizada do mundo. Por isso, Dickens terá um público potencial muito alargado, não só na Grã-Bretanha como além do Atlântico.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Maravilhoso Mágico de Oz

.    Nosso 31º encontro da Confraria Reinações Caxias que se realizara no dia 17 de janeiro de 2012, será sobre a obra de Lyman Frank Baum (1856 - 1919), "O Maravilhoso Mágico de Oz (1900)".
    A coordenação do encontro será do confrade Rogerio Becker.

    Cartaz - convite


    Sobre a obra e o autor:

    Lyman Frank Baum escritor e teosofista norte-americano. Foi criador de um dos mais populares livros jamais escritos na literatura americana infantil "O Maravilhoso Mágico de Oz".
    Dorothy mora com os tios Henry e Emm em uma fazenda no Kansas. Seu único amigo era o cãozinho Totó que, durante uma tempestade, desaparece. Procurando-o desesperadamente, a menina entra no abrigo contra ciclones e esconde-se na pequena casa que, levada por um tufão pelos ares, terminando por arremessá-la numa distante e desconhecida terra.

fonte: wikipedia

domingo, 18 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal

    Na noite de 13 de dezembro de 2011, aprendemos um pouco sobre o "Espírito de Natal" através da obra de Charles Dickens "Um conto de Natal" (1843).
    A coordenação do nosso 30º encontro ficou a cargo da confrade Tatiane Becker.

    Não postaremos o convite desse mês pois ocorreu um imprevisto com nossa colaboradora Karen.


    Um Feliz Natal a todos que nos apoiaram durante essa jornada, e a todos os confrades que de alguma maneira nos acompanharam.


    Abaixo um comentário sobre a obra pelo confrade Dangelo:

   
Comentários sobre Um conto de Natal, de Charles Dickens[1]:
Quem sou, de onde venho, para onde vou?

Dangelo Müller*

            Quando pensamos em Charles Dickens, acabamos por vincular ao nome do autor os elementos do romance social que o consagrou. E, de fato, Dickens é mais conhecido por suas obras “de fôlego”, seus romances e novelas, que abordam as mazelas de uma Londres do século XIX, pulsante sob os signos do capitalismo, das rígidas relações sociais e da exploração do ser humano por um regime cruel.
            Além desse aspecto social, podemos dizer que há uma “roda da fortuna” nas obras de Dickens, as heranças oscilam, as riquezas surgem, e também desaparecem, a sorte sorri, e também se esconde. A deusa da fortuna desfila com sua carruagem, mas não hesita em esmagar todos com suas rodas e demonstra o quão ilusório é nossa relação com os pretensos bens que possuímos – ou acreditamos possuir.
            Assim, A Christmas Carol, de 1843, é uma obra emblemática. Mostrando a habilidade de Dickens enquanto contista, além de um enredo cativante, o Conto de Natal, como ficou conhecido nas versões em língua portuguesa, aborda, de forma concisa, um problema essencial: a relação do homem com a sociedade e, também, consigo mesmo.
            O conto se passa numa Londres oitocentista marcada pela desigualdade social, na qual ricos e pobres travam relações que beiram o escravismo. Ebenezer Scrooge é um homem desse tempo, que tange seus caminhos pela via da impessoalidade, da economia e lucros máximos, das custas e gastos mínimos. Scrooge, agindo de tal modo, tornou-se um homem velho e rico, porém solitário, um oposto ao seu empregado, o simpático Bob Cratchit – homem pobre, explorado por Scrooge, porém com uma vasta e alegre família. O meio termo, nem tão rico, ou tão pobre, está no sobrinho de Ebenezer, Fred, um rapaz alegre que ama o tio, apesar de seus defeitos.
            Um elemento intrínseco ao enredo da obra parece ser o número 3: são três os espíritos natalinos que visitam Scrooge, são três os tempos do conto, e, podemos perceber a sutileza, nas entrelinhas, de três perguntas essenciais que “filtram” o avarento. A primeira pergunta parece acontecer – subentendida – pouco depois do fantasma de Jacob Marley apreentar-se ao trêmulo Scrooge: o falecido sócio de Ebenezer surge coberto de correntes e soltando pavoros gritos e gemidos, denunciadores de sua condição de apenado espiritual. Marley, arrependido da vida sovina, mesquinha e altiva que levou, tenta persuadir Scrooge a mudar seus próprios caminhos, se tornar um homem solidário e filantropo. Para lograr o almejado resultado, Marley anuncia a Scrooge a visita dos três espíritos natalinos e o previne para prestar atenção em seus ensinamentos. A margem está posta: a direção de Scrooge o levará ao tormento, assim como Marley, a não ser que ele mude seu modo de vida. Eis a virada de sorte de Scrooge: a oportunidade de mudar.

            Partindo dessa margem – o aviso de Marley – surge a primeira das três perguntas essenciais que comentamos acima: de onde venho? A resposta passa pela visita do primeiro espírito, o fantasma dos natais passados. A viagem espectral leva Scrooge de volta ao tempo da infância e da juventude, quando o natal ainda lhe era uma data feliz. O velho percebe como a vida o modificou, como seu coração recrudesceu e ele se fechou aos outros.
            A segunda pergunta em nossa leitura pode ser aquela que visa o tempo presente: quem sou? e cuja resposta está vinculada ao espírito do natal presente. O alegre gigante conduz Ebenezer por um passeio aos mais distantes pontos, ilhas, faróis, navios e mesmo cidades, que estão comemorando o natal. Scrooge nota como a alegria parece ser um efeito contagiante da união das pessoas e começa a questionar a si mesmo por não fazer parte daqueles graciosos festejos. Sua participação na comemoração do sobrinho é magnífica: mesmo sob uma forma etérea, Scrooge sente a corrente eufórica dos jovens, de suas brincadeiras, canções e danças perpassarem-lhe a alma.
            A terceira, e última, pergunta versa sobre os tempos futuros, sobre as hipóteses. O espírito do natal futuro, sombrio, oculto num manto escuro e mudo  aproxima-se de Scrooge. A nostalgia do passado e a alegre euforia do presente são substituídas pela angústia, pelo medo e a tristeza de perceber o mundo cinza e vazio após sua morte. Ebenezer Scrooge, o rico proprietário, dono da firma, pessoa respeitável e cidadão londrino modelar havia se transformado numa reles sombra, fadada ao esquecimento. Nesse momento ocorre umas das mais chocantes cenas da obra. Scrooge, ainda tentando aceitar o próprio óbito, busca alguém que sinta algo em relação a sua morte. Porém, tudo que Scrooge e o espírito do natal futuro veem é o sentimento de alívio que a ausência de Ebenezer gerou aos seus devedores e funcionários. Chocado e perplexo, o homem rico volta ao seu quarto após a visão fantasmagórica de seu futuro. A partir da manhã seguinte, ele se torna um novo homem, reconcilia-se com seus amigos e parentes, presenteia seu funcionário e a família deste, cantarola músicas natalinas etc, ou seja, Ebenezer Scrooge renasce.

            E talvez este seja o grande tema de Um conto de natal, o renascimento do homem, de seus sentimentos, de sua visão humanitária. Scrooge renasce e descobre que seus bens, seu dinheiro e posses são apenas acessórios e que o principal é o sentimento que aproxima os diferentes nas mais adversas situaçãoes. Desse modo, Charles Dickens constrói uma história cujo cerne está vinculado a um trecho do evangelho de Lucas, capítulo 16, versículo 19 a 31, ou seja, a parábola do rico e Lázaro.
            Assim como no texto bíblico, a vida e a morte formam elos e estes só podem ser modificados pela ação efetiva dos seres: Ebenezer Scrooge começa o conto de Dickens como o Rico do texto bíblico: ensimesmado e distante dos demais, porém, aos poucos, ele se torna mais e mais próximo a Lázaro, que mesmo pobre, possuia a riqueza insofismável de um coração afortunado. Enquanto o personagem rico está fadado ao sofrimentos no Hades, ou Sheol, Scrooge alcança a salvação por meio de uma nova jornada de redenção voltada à caridade e bem-aventurança. Desse modo, a premissa de Um conto de Natal continua válida em nossos dias, uma vez que vivemos em um tempo em que o materialismo e o consumismo impõem a supremacia sobre o sentimento. Após a leitura, resta-nos o desejo de que o natal, assim como a lendária fênix, possa renascer, junto com os sentimentos fraternos e caridosos, em nossos corações, fazendo ecoar a christmas carol de Dickens.



[1]   DICKENS, Charles. Um conto de natal. L&PM:Porto Alegre, 2008. Obra mediada por Tatiane Becker, no dia 13/12/2011, na confraria de literatura infanto-juvenil Reinações.
* Membro da Confraria de literatura infanto-juvenil Reinações, de Caxias do Sul-RS