Encontros da Confraria

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal

    Na noite de 13 de dezembro de 2011, aprendemos um pouco sobre o "Espírito de Natal" através da obra de Charles Dickens "Um conto de Natal" (1843).
    A coordenação do nosso 30º encontro ficou a cargo da confrade Tatiane Becker.

    Não postaremos o convite desse mês pois ocorreu um imprevisto com nossa colaboradora Karen.


    Um Feliz Natal a todos que nos apoiaram durante essa jornada, e a todos os confrades que de alguma maneira nos acompanharam.


    Abaixo um comentário sobre a obra pelo confrade Dangelo:

   
Comentários sobre Um conto de Natal, de Charles Dickens[1]:
Quem sou, de onde venho, para onde vou?

Dangelo Müller*

            Quando pensamos em Charles Dickens, acabamos por vincular ao nome do autor os elementos do romance social que o consagrou. E, de fato, Dickens é mais conhecido por suas obras “de fôlego”, seus romances e novelas, que abordam as mazelas de uma Londres do século XIX, pulsante sob os signos do capitalismo, das rígidas relações sociais e da exploração do ser humano por um regime cruel.
            Além desse aspecto social, podemos dizer que há uma “roda da fortuna” nas obras de Dickens, as heranças oscilam, as riquezas surgem, e também desaparecem, a sorte sorri, e também se esconde. A deusa da fortuna desfila com sua carruagem, mas não hesita em esmagar todos com suas rodas e demonstra o quão ilusório é nossa relação com os pretensos bens que possuímos – ou acreditamos possuir.
            Assim, A Christmas Carol, de 1843, é uma obra emblemática. Mostrando a habilidade de Dickens enquanto contista, além de um enredo cativante, o Conto de Natal, como ficou conhecido nas versões em língua portuguesa, aborda, de forma concisa, um problema essencial: a relação do homem com a sociedade e, também, consigo mesmo.
            O conto se passa numa Londres oitocentista marcada pela desigualdade social, na qual ricos e pobres travam relações que beiram o escravismo. Ebenezer Scrooge é um homem desse tempo, que tange seus caminhos pela via da impessoalidade, da economia e lucros máximos, das custas e gastos mínimos. Scrooge, agindo de tal modo, tornou-se um homem velho e rico, porém solitário, um oposto ao seu empregado, o simpático Bob Cratchit – homem pobre, explorado por Scrooge, porém com uma vasta e alegre família. O meio termo, nem tão rico, ou tão pobre, está no sobrinho de Ebenezer, Fred, um rapaz alegre que ama o tio, apesar de seus defeitos.
            Um elemento intrínseco ao enredo da obra parece ser o número 3: são três os espíritos natalinos que visitam Scrooge, são três os tempos do conto, e, podemos perceber a sutileza, nas entrelinhas, de três perguntas essenciais que “filtram” o avarento. A primeira pergunta parece acontecer – subentendida – pouco depois do fantasma de Jacob Marley apreentar-se ao trêmulo Scrooge: o falecido sócio de Ebenezer surge coberto de correntes e soltando pavoros gritos e gemidos, denunciadores de sua condição de apenado espiritual. Marley, arrependido da vida sovina, mesquinha e altiva que levou, tenta persuadir Scrooge a mudar seus próprios caminhos, se tornar um homem solidário e filantropo. Para lograr o almejado resultado, Marley anuncia a Scrooge a visita dos três espíritos natalinos e o previne para prestar atenção em seus ensinamentos. A margem está posta: a direção de Scrooge o levará ao tormento, assim como Marley, a não ser que ele mude seu modo de vida. Eis a virada de sorte de Scrooge: a oportunidade de mudar.

            Partindo dessa margem – o aviso de Marley – surge a primeira das três perguntas essenciais que comentamos acima: de onde venho? A resposta passa pela visita do primeiro espírito, o fantasma dos natais passados. A viagem espectral leva Scrooge de volta ao tempo da infância e da juventude, quando o natal ainda lhe era uma data feliz. O velho percebe como a vida o modificou, como seu coração recrudesceu e ele se fechou aos outros.
            A segunda pergunta em nossa leitura pode ser aquela que visa o tempo presente: quem sou? e cuja resposta está vinculada ao espírito do natal presente. O alegre gigante conduz Ebenezer por um passeio aos mais distantes pontos, ilhas, faróis, navios e mesmo cidades, que estão comemorando o natal. Scrooge nota como a alegria parece ser um efeito contagiante da união das pessoas e começa a questionar a si mesmo por não fazer parte daqueles graciosos festejos. Sua participação na comemoração do sobrinho é magnífica: mesmo sob uma forma etérea, Scrooge sente a corrente eufórica dos jovens, de suas brincadeiras, canções e danças perpassarem-lhe a alma.
            A terceira, e última, pergunta versa sobre os tempos futuros, sobre as hipóteses. O espírito do natal futuro, sombrio, oculto num manto escuro e mudo  aproxima-se de Scrooge. A nostalgia do passado e a alegre euforia do presente são substituídas pela angústia, pelo medo e a tristeza de perceber o mundo cinza e vazio após sua morte. Ebenezer Scrooge, o rico proprietário, dono da firma, pessoa respeitável e cidadão londrino modelar havia se transformado numa reles sombra, fadada ao esquecimento. Nesse momento ocorre umas das mais chocantes cenas da obra. Scrooge, ainda tentando aceitar o próprio óbito, busca alguém que sinta algo em relação a sua morte. Porém, tudo que Scrooge e o espírito do natal futuro veem é o sentimento de alívio que a ausência de Ebenezer gerou aos seus devedores e funcionários. Chocado e perplexo, o homem rico volta ao seu quarto após a visão fantasmagórica de seu futuro. A partir da manhã seguinte, ele se torna um novo homem, reconcilia-se com seus amigos e parentes, presenteia seu funcionário e a família deste, cantarola músicas natalinas etc, ou seja, Ebenezer Scrooge renasce.

            E talvez este seja o grande tema de Um conto de natal, o renascimento do homem, de seus sentimentos, de sua visão humanitária. Scrooge renasce e descobre que seus bens, seu dinheiro e posses são apenas acessórios e que o principal é o sentimento que aproxima os diferentes nas mais adversas situaçãoes. Desse modo, Charles Dickens constrói uma história cujo cerne está vinculado a um trecho do evangelho de Lucas, capítulo 16, versículo 19 a 31, ou seja, a parábola do rico e Lázaro.
            Assim como no texto bíblico, a vida e a morte formam elos e estes só podem ser modificados pela ação efetiva dos seres: Ebenezer Scrooge começa o conto de Dickens como o Rico do texto bíblico: ensimesmado e distante dos demais, porém, aos poucos, ele se torna mais e mais próximo a Lázaro, que mesmo pobre, possuia a riqueza insofismável de um coração afortunado. Enquanto o personagem rico está fadado ao sofrimentos no Hades, ou Sheol, Scrooge alcança a salvação por meio de uma nova jornada de redenção voltada à caridade e bem-aventurança. Desse modo, a premissa de Um conto de Natal continua válida em nossos dias, uma vez que vivemos em um tempo em que o materialismo e o consumismo impõem a supremacia sobre o sentimento. Após a leitura, resta-nos o desejo de que o natal, assim como a lendária fênix, possa renascer, junto com os sentimentos fraternos e caridosos, em nossos corações, fazendo ecoar a christmas carol de Dickens.



[1]   DICKENS, Charles. Um conto de natal. L&PM:Porto Alegre, 2008. Obra mediada por Tatiane Becker, no dia 13/12/2011, na confraria de literatura infanto-juvenil Reinações.
* Membro da Confraria de literatura infanto-juvenil Reinações, de Caxias do Sul-RS

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